Cabo,
sargento, coronel. Se nos órgãos de segurança pública a função de cada
integrante tem a hierarquia de poder seguida à risca, no processo eleitoral as
denominações se misturam e disputam o mesmo espaço. Só neste ano, pelo menos
1.229 profissionais ligados a instituições policiais e militares são candidatos
às eleições de outubro, 5,99% do total de candidatos contabilizados pelo
Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O percentual é pouco menor que o registrado
nas eleições de 2022, quando houve 6,71% de candidaturas de policiais e pessoas
ligadas às forças de segurança, refletindo a permanência de discursos
punitivistas na política, conforme apurou a Agência Pública.
Embora
exista proximidade percentual entre os dois pleitos, em números absolutos,
houve uma redução significativa nesse tipo de candidatura: 37,4% em comparação
a 2022, quando 1.963 profissionais ligados às forças de segurança disputaram
uma vaga na política. As eleições anteriores, porém, tiveram um número superior
de candidaturas totais.
A
maioria das candidaturas ligadas às forças de segurança pública de 2026 é
protagonizada por policiais militares, que representam 46,14% do total
registrado, seguido por policiais civis (9,76%), bombeiros militares (7,49%),
militares reformados (7,49%) e membros das forças armadas (6,67%). Os dados
foram processados a partir da autodeclaração da ocupação feita pelos
postulantes ao TSE.
Partidos
de direita, extrema-direita e centro dominam os registros. O PL, legenda do
ex-presidente Jair Bolsonaro, lidera a lista com 197 candidatos (16%). Depois
vem Republicanos (10%), Podemos (8,22%) e Novo (7,24%). Aliados do clã
bolsonarista defendem um sistema penal mais repressivo e punitivista,
utilizando muitas vezes como referência as ações do presidente de El Salvador,
Nayib Bukele. O líder salvadorenho reduziu as taxas de criminalidade com
medidas controversas marcadas por prisões em massa, denúncias de violações de
direitos humanos e suspensão de direitos constitucionais.
Não
há candidatos à presidência que sejam policiais, mas o vice de Renan Santos
(Missão) é o Coronel Medina, tenente-coronel da reserva da Brigada Militar do
Rio Grande do Sul. Já para os governos estaduais, há sete postulantes ligados a
forças de segurança, com destaque para a Policial Edjane (Agir) em São Paulo,
Coronel Busnello (Missão) no Rio de Janeiro e Cabo Daciolo (Mobiliza) no
Amazonas.
O
levantamento da Pública considerou o total de candidatos no Portal de Dados
Abertos do TSE na manhã de hoje (17 de agosto), com 20.506 candidaturas, e
considerou a ocupação declarada pelos postulantes, bem como o nome de urna com
palavras ligadas às forças de segurança. Os candidatos tiveram até o último
sábado, 15 de agosto, para registrar sua candidatura no TSE.
No
levantamento, foi identificada uma diferença de gênero substancial, sendo
80,80% das candidaturas de homens e 19,20% de mulheres. Em relação ao
percentual de candidatos policiais por estado, os números variam de 3% a 7%; a
exceção está no Distrito Federal, que soma 59 candidaturas policiais, o
equivalente a 9,18% do total de candidatos regionais.
Os problemas
da policialização da política
A
chamada “policialização” ou militarização da política é um problema apontado
por especialistas ouvidos pela Pública por diversos fatores. O primeiro deles
refere-se ao fato de que, quando eleitos, esses policiais costumam propor e
defender projetos de lei corporativistas mais do que políticas públicas
voltadas a uma melhoria da segurança no país. Outra questão é o uso da polícia
e de operações policiais como trampolim político no caso de candidatos
policiais influencers, a defesa de polícia ostensiva em detrimento de
investimento em investigação policial e um discurso punitivista. Há ainda o
debate sobre quanto tempo esses candidatos precisam se afastar do cargo público
para se candidatar.
Na
avaliação de Thiago Amparo, advogado e professor de direito internacional e
direitos humanos na Fundação Getúlio Vargas (FGV) Direito São Paulo, candidatos
policiais limitam suas agendas em duas principais demandas: uma relacionada a
questões corporativas em termos de avanço na carreira policial; e a outra
voltada ao endurecimento das leis penais.
“A
direita, especialmente a extrema direita, funciona muito na lógica dessa política
do inimigo, de um lado o policial e de outro os bandidos, os criminosos.
Estamos diante não só de uma ascensão das candidaturas em geral e não só do
alinhamento de candidatos policiais à direita. Estamos falando de uma
construção de uma identidade do que é ser policial: que é aquele policial mais
combativo, a favor de políticas repressivas violentas e que está dentro dessa
lógica do ‘nós versus eles”, analisa o pesquisador. O problema disso é que,
quando eleitos, esses policiais costumam defender não necessariamente pautas
ligadas ao real problema da segurança pública no país. “A gente tem uma
necessidade de discussão sobre a falta de investigação de crimes. O Brasil
muitas vezes tem mais policiamento ostensivo do que o policiamento
investigativo”.
Dados
levantados pela Plataforma Justa mostram que, no Brasil, do orçamento de R$
53,3 bilhões dos Estados para o policiamento, quase 70% são destinados às
Polícias Militares (policiamento ostensivo nas ruas) e menos de 23% à Polícia
Técnico-Científica, fundamental para investigações eficientes. Como
consequência, a resolução de crimes no Brasil também é baixa: menos de 40% dos
homicídios do país são esclarecidos, de acordo com o instituto Sou da
Paz.
Quando a
polícia legisla
Assim
como os programas policiais frequentemente pautados em casos violentos e crimes
bárbaros, boa parte dos políticos ligados à segurança pública buscam
engajamento no sensacionalismo. Com isso, a maioria ignora estatísticas e se
baseia em situações específicas para propor ações de combate à criminalidade,
observa a pesquisadora Natasha Bachini, do Núcleo de Estudos da Violência da
Universidade de São Paulo (NEV-USP).
Para
ela, o feminicídio é um dos temas que acabam sendo abordados de forma
equivocada e sem o direcionamento adequado. Em 2025, o Brasil registrou aumento
de 4% no número de feminicídios, chegando ao quarto ano consecutivo com alta
nesse tipo de crime.
“Nessa
disputa de narrativas, eles acabam aderindo a enquadramentos, a inclinações
punitivistas. Quando a gente observa para onde estão sendo destinados os
recursos públicos, sobretudo as emendas parlamentares, você percebe que esses
políticos, ou que vêm das forças de segurança, ou que têm uma relação amistosa
com essas forças, destinam boa parte dos seus recursos parlamentares para
fortalecê-las”, reforçou.
Atualmente,
em torno de 38 dos 513 deputados federais são policiais militares, delegados,
agentes federais e da Polícia Civil. Eles compõem um grupo em ascensão que
domina a Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados e, em grande
maioria, apoia políticas ostensivas e o endurecimento de leis para o
cometimento de crimes.
Ações
para amplificar o discurso ostensivo cresceram exponencialmente na comissão
entre 2022 e 2023, conforme o Instituto Sou da Paz. Foi identificado um aumento
32,28% nos requerimentos protocolados na comissão, a maior parte associada à
visibilidade política em redes sociais e à sinalização às bases eleitorais.
“Essa prática pode comprometer a qualidade do debate legislativo ao priorizar o
engajamento digital em detrimento da deliberação qualificada sobre temas de
segurança pública”, diz um trecho do relatório divulgado pelo instituto.
Esses
fatores englobam um dos grandes impasses de uma candidatura policial: o poder
do vínculo permanente entre a figura política e o órgão pautado na hierarquia,
disciplina e ações dissuasivas de segurança pública – apontam os pesquisadores
entrevistados pela reportagem.
O
Instituto Sou da Paz registrou diversos exemplos do uso inadequado da estrutura
de forças de segurança para fins eleitorais. Um dos casos ocorreu durante as
eleições municipais de 2024, em São Paulo. À época, o então candidato a
vereador, Policial Machado (Republicanos), gravou um vídeo ao lado de um
tenente da PM fardado, dentro de um batalhão e ainda sugerindo que o local
fosse utilizado como núcleo da campanha política. No mesmo ano, o policial
militar e candidato a vereador em Nova Iguaçu (RJ), Marcelo Lages (União
Brasil), disparou contra a carreata de um candidato rival. Machado foi
procurado pela reportagem, mas não se manifestou até a publicação deste texto,
que segue aberto para atualizações.
Das redes para
o Congresso: o policial influencer
Muitos
militares ganham propulsão na carreira política com a viralização de ideias
violentas para os problemas no país, o famoso formato “bandido bom é bandido
morto” – premissa rebatida por especialistas em segurança pública e defensores
de direitos humanos. Esse tipo de discurso, conforme pesquisadores e
especialistas ouvidos pela Pública, vai além do parlamento e das redes sociais
– influencia na segurança como um todo a partir da espetacularização do
discurso policialesco.

Um
dos exemplos do fenômeno classificado por muitos pesquisadores como “policial
influencer” é o ex-vereador do Rio de Janeiro (RJ), Gabriel Monteiro, eleito em
2020 e que teve o mandato cassado em 2022 por denúncias de assédio moral,
sexual e abuso de autoridade. Ele chegou a ficar preso por mais de 2 anos e foi
solto em março de 2025 por decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ). O nome
do ex-vereador ganhou notoriedade com a repercussão de vídeos de operações
policiais em favelas do Rio de Janeiro publicados no canal dele no Youtube, que
acumula mais de 6 milhões de seguidores. Gabriel Monteiro teve a candidatura à
deputado federal barrada pela justiça eleitoral nas eleições de 2022, mas
conseguiu transferir o apoio político ao pai, Roberto Monteiro (PL-RJ), eleito
deputado federal com mais de 93 mil votos. Procurado, Gabriel Monteiro não se
manifestou até a publicação deste texto. O espaço segue aberto.
Para
Felippe Angeli, coordenador de advocacy do Justa, o vínculo entre um “policial
influencer” e o órgão onde ele atua vira um palco para a carreira política. Com
isso, os interesses individuais do policial se sobrepõem a qualquer outro, inclusive
de políticas públicas preventivas para combater a violência do país.
“Um
‘policial influencer’, quando está com 1 milhão de seguidores e está ganhando
mais dinheiro monetizando o canal dele no YouTube do que como policial, ele não
está mais seguindo a lei, ele está seguindo o interesse dele, como uma pessoa,
que é celebridade ou subcelebridade, que usa a polícia como trampolim, seja
financeiro ou eleitoral”, pontuou.
Quarentena de
pelo menos um ano
Países
como Colômbia e Peru proíbem membros das Forças Armadas e da polícia de se
candidatarem a cargos eletivos enquanto estiverem na ativa (exercendo as
funções). No Brasil, militares da ativa são alistáveis, mas seguem regras
específicas: se tiver 10 anos ou mais de serviço passa automaticamente à inatividade
caso eleito; e retorna ao cargo, se não alcançar a vitória no pleito. Em geral,
policiais devem se afastar do cargo de 3 a 6 meses antes da eleição, o que
acaba funcionando, na prática, como uma licença remunerada.
Para
a diretora-executiva do instituto Sou da Paz, Carolina Ricardo, uma das medidas
necessárias para evitar o uso político do trabalho policial e das operações
sensacionalistas seria a obrigatoriedade de afastamento de pelo menos um ano do
policial das atividades em campo, como prevê o novo Código Eleitoral que
tramita no Senado Federal desde 2021 – sem data para ser votado. “Quando temos
essa radicalização dos pólos, especialmente pela extrema direita, temos uma
discussão que mistura, por exemplo, a defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro. A
discussão crítica sobre violência policial nunca esteve muito presente”.
Quando
eleito, um policial mantém grau de influência nas corporações e normalmente se
junta ao grupo que restringe o debate político na formulação de leis e
discussões sobre políticas públicas relativas ao combate à violência e
voltadas, inclusive, à saúde mental do próprio policial. O suicídio é a maior
causa de morte entre policiais civis e militares no país – dados do Anuário
Brasileiro de Segurança Pública.
Nesse
cenário, problemas centrais na política criminal são debatidos numa única
vertente: a repressão. Um exemplo está no combate a facções criminosas, que se
fortalecem dentro dos presídios. O Brasil tem a terceira maior população
carcerária do mundo, com mais de 964 mil presos, quase 70% são pessoas negras,
segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Dados da Plataforma Justa
apontam uma quase inexistência de políticas públicas voltadas a egressos do
sistema prisional – algo que, segundo a entidade, ajudaria a diminuir as taxas
de reincidência e, consequentemente, de encarceramento.
A
Pública conversou com um dos parlamentares que compõem a bancada de militares
no Congresso Nacional, o deputado federal capitão Alberto Neto (PL-AM).
Integrante da oposição na Câmara, ele atribuiu o alto número de candidatos
policiais a “um reflexo da insegurança que o país vive” e ainda revelou um elo
entre o setor corporativo e a atuação dele: sua entrada na política se deu a
convite da Associação de Policiais Militares do Amazonas.
O
deputado afirma também defender políticas preventivas de segurança pública e
uma “repressão qualificada”. Segundo ele, é necessário um “choque de ordem” com
o estabelecimento de punições mais duras.
“Nós
conhecemos os obstáculos enfrentados pelas forças policiais, os mecanismos
utilizados pelo crime organizado e a realidade do sistema penitenciário. Essa
experiência contribui para o debate de propostas como o endurecimento das
penas, a redução da maioridade penal nos casos previstos em lei e, para
fortalecer o enfrentamento às organizações criminosas”, disse. Fonte:
Agência Pública